quinta-feira, 19 de junho de 2014

ADIÓS! CICLO ENCERRADO. Reinado da Espanha em 7 atos


Do surgimento ao fim da hegemonia
Espanha vê encerrado o ciclo mais vitorioso de sua seleção nacional


 Tristeza dos jogadores espanhóis após eliminação (Foto: Fifa.com)

Confira em 7 atos os acontecimentos que marcaram a geração mais talentosa da Espanha.

1º ATO: [2006] Surgimento.


A semente precisa morrer pra germinar se tornar algo maior: Uma planta. A semente foi a equipe de 2006, que, a partir da eliminação, germinou uma das seleções mais vitoriosas de toda a história do futebol.

Escalação titular da Espanha, em 2006, no jogo contra a França


A cidade de Hannover presenciou, em 2006, um evento que marcaria a Real Federación Española de Futbol. A seleção espanhola era taxada como uma equipe que chegava às fases agudas, mas quando era exigida frente a um adversário mais forte, não correspondia às expectativas e fracassava. E foi assim, naquele fatídico dia 27 de junho. Cenário: Oitavas-de-final da Copa, enfrentando a França de Zidane, Henry, Viera, Thuram e Ribery. Jogadores jovens e promissores no elenco. A seleção comandada por Luis Aragonês vencia com gol de David Villa, mas cedeu o Empate aos 40' do 1ºT. Quando tudo se encaminhava à prorrogação, aos 37' do 2ºT, Viera virou e, logo após, Zidane ampliou. Derrota 3x1 e - paradoxalmente - ali se iniciava o ciclo mais vencedor da seleção da península Ibérica.


Nos anos que se seguiram - até 2014 - foram 117 jogos.
Incríveis 98 vitórias, 12 empates e, apenas 13 derrotas


2º ATO: [2008] Consagração na Europa


Título da Euro foi o primeiro da geração de ouro. 


Na Euro 2008, a equipe campeã tinha em seu elenco muitos remanescentes de 2006. Alguns tornaram-se titulares - como Iniesta e Marcos Senna. Outras revelações, como David Silva e Fábregas, foram ganhando espaço e agregaram juventude à equipe. O futebol apresentdo ainda não era o tão consagrado Tiki Taka. A final da Euro foi vencida, frente à Alemanha, com muita dificuldade. 1x0 magro e troféu direto para Madrid. O primeiro dos 3 títulos importantes que essa geração conquistou.


3º ATO: [2009]  Iniesta & Xavi: Tiki Taka barcelonista de Guardiola instaura o novo estilo de jogo da seleção.


Dupla dinâmica revolucionou meio campo do Barça e da seleção.(Foto: barcafan-club)

Após a Euro 2008, o técnico Luis Aragonês deu lugar a Vicente Del Bosque no comando técnico. Del Bosque aproveitou o bom momento do Barcelona para empregar em sua seleção o mesmo sistema de jogo da equipe catalã - comandada, na época, por Pep Guardiola. Na verdade, a participação de Guardiola na mudança de filosofia da seleção espanhola foi enorme, pois a espinha dorsal da equipe de Del Bosque era a base do time titular do Barça. A posse de bola e troca de passes intensa e qualificada tinham explicação: Xavi e Iniesta. Os jogadores estavam no auge técnico e físico (Entre 2009 e 2012, pelo menos um deles esteve entre os 3 melhores jogadores do mundo pela FIFA) e davam dinâmica ao meio campo da seleção. Com suas atuações beirando à perfeição, levaram o Barcelona às suas maiores conquistas e à soberania na Espanha. (Champions League 2009 e 2011/ Mundial de Clubes 2009 e 2011). Todo esse legado catalão e "Guardiolista" foi aproveitado na seleção, que desfrutou da boa safra de jogadores técnicos para implementar o "tiki taka".


4º ATO: [2010] Coroação mundial


Título mundial afastou as duvidas em relação ao potencial dessa geração. (Foto: Fifa.com)

Mesmo vencendo a EURO 2008, apresentando bom futebol - apesar de ser surpreendida pelos EUA na semifinal da Copa das Confederações de 2009 -, e tendo jogadores de grande qualidade técnica, ainda haviam dúvidas sobre o real potencial da equipe. As desconfianças se reforçaram após a derrota na primeira rodada da Copa de 2010, para a inferior Suiça. Mas, durante a competição as duvidas começaram a se dissipar à medida em que as boas atuações foram acontecendo. Iniesta coroou - com o gol na final - a geração que venceu o esteriótipo de fracassada e colocou a Espanha no hall seleto das seleções vencedoras de Copa.


5º ATO: [2012] Tiki Taka em sua plenitude.


Casillas cansou de levantar troféus (Foto: pt.Uefa.com)

No auge da experiência, alguns jogadores espanhóis (como Xabi Alonso, Xavi, Iniesta e Fábregas) usufruíram da maturidade e sobriedade para armar o meio de campo envolvente da Espanha. A bagagem adquirida pelos títulos de 2008 e 2010, deram condições para que a equipe de Del Bosque controlasse o jogo, esfriasse os adversário e apresentasse um futebol onde a maior técnica defensiva era a posse de bola. Uma vitória acachapante, por 4x0, sobre a Itália, marcou o último ato positivo da realeza do futebol espanhol antes do declínio.

6º ATO: [2013] O declínio do império da posse de bola


Jogadores atônitos após a derrota para o Brasil (Foto: Globoesporte.com)

As eliminatórias europeias para a Copa do Mundo de 2014 evidenciaram alguns problemas na Roja. Xavi não apresentava o mesmo rendimento que o consagrara - muito pela questão física -, e a queda de rendimento desse ícone foi sentido pela seleção. O Barcelona também viveu uma queda de produtividade vertiginosa, que refletiu na seleção nacional. A falta de variação tática foi um aspecto negativo, pois as equipes - que antes eram envolvidas pelo toque de bola - começaram a estudar e neutralizar o sistema tático do combinado espanhol. Com isso, a excessiva troca de passes tornou-se sem objetividade e profundidade. Na Copa das Confederações, a Espanha iniciou sua fase de grupos bem. Venceu o Uruguai (2x1) e Nigéria (3x0) apresentando bom futebol. (Não falarei do Taiti, pois estou tratando de futebol profissional). Na semifinal, contra a Itália, a partida foi dura. Empate e penaltis no Castelão. Aquele jogo mostrou que a Espanha já não era imbatível. A Itália, que um ano antes fora presa fácil na final da Euro, assimilou e marcou com contundência, anulando o tiki-taka. Na final, no Maracanã, a marcação agressiva adiantada do Brasil e verticalidade do ataque canarinho deixaram a Espanha atônita e improdutiva. No final da partida, os jogadores espanhóis não sabiam o que os tinha atropelado. Pra muitos, a derrota não significava nada. Mas, na verdade, era o prenúncio de uma tragédia.


7º ATO: [2014] Melancólico e vexatório fim de ciclo.


Iniesta e a decepção da eliminação. (Foto; pt.Fifa.com)

Buscando reinventar seu esquema e tentar alternativas para os jogadores mais envelhecidos do elenco, Del Bosque apostou em uma formação com um "homem de referência" no ataque. Testou Negredo, Llorente, Fernando Torres, David Villa e até Michu. Sem muitas perspectivas de sucesso, "seduziu" Diego Costa a defender la Roja. O problema que parecia resolvido voltou à tona. O espano-brasileiro se contundiu e chegou à Copa longe de suas condições ideais. A equipe - envelhecida e sem intensidade de jogo - chegou ao Brasil tentando defender seu título. No entanto, logo na primeira rodada, tomou um choque de realidade. Em um verdadeiro carnaval fora de época, a Holanda passou com o seu veloz trio elétrico (Robben, Van Persie e Sneider) por cima dos espanhóis (5x1). A micareta não parou por aí, mas dessa vez foi na cidade do Rio (mais precisamente no Maracanã). O bloco Chileno desfilou e tornou inúteis todas as tentativas espanholas de manter viva a chama do bicampeonato. Dos 23 jogadores presentes na Copa de 2014, 9 são remanescentes do grupo de 2006. Poderíamos atribuir a eliminação vexatória - ainda na segunda rodada da fase de grupos - ao envelhecimento do grupo, falta de repertório tático, lentidão e pragmatismo do meio-campo, passividade de seu técnico, mas sabemos que todo ciclo vencedor tem seu fim. E hoje, contemplamos a história sendo escrita. É o ponto final do Tiki-taka como conhecemos. No fim do jogo contra o Chile, Sergio Ramos afirmou que o ciclo não havia terminado ainda, mas é notório o encerramento da etapa mais vitoriosa de uma das maiores seleções da história do futebol. A hegemonia acabou. Não há outra saída, senão a renovação total da equipe e filosofia de jogo. 

De forma dolorosa e melancólica, essa seleção, surpreendentemente, saiu da Copa, mas já está gravada e ficará para sempre nos anais da história do futebol. 





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